terça-feira, 8 de janeiro de 2008

SUL - Viajando outra vez

" Viajar, portanto, é uma jornada àquela famosa zona subjetiva, a imaginação..."

Desde sempre o prazer de viajar mora em mim. E há muito não tenho exercitado essa minha alma cigana. Dia 27 de dezembro saímos em excursão, em ônibus-leito, para um grande passeio pelas Serras Gaúchas. De ônibus? Mais de três mil quilômetros entre a ida e a volta? Isso mesmo... Só assim nos livramos dos aeroportos recheados de passageiros estressados e podemos apreciar a paisagem, que veio de brinde, quando compramos o "pacote". Sempre que viajo, faço um diário, onde vou anotando o que vejo, o que sinto, o que ficou sem ser feito, o que comi, quem conheci... Pensei que dessa vez seria diferente. Já vou colocar tudo no Blog. É mais moderno, mais interessante e em tempo real. Bem.... isso daria certo se os computadores dos hotéis estivessem funcionando, se houvesse lan house por perto ou se o ciber-café fosse acessível. O jeito foi apelar pra velha cadernetinha e a caneta BIC, que sempre funcionam e nunca nos deixam na mão. Nosso primeiro objetivo é alcançar Curitiba. A estrada Fernão Dias está razoável, mas em alguns trechos os buracos acordam quem está dormindo. A Régis Bittencourt, entre Registro e a capital paranaense também está bem estragada, mas a beleza da paisagem nos faz esquecer o desconforto. O dia claro, deixa entrever trechos bem preservados de mata Atlântica, semeada de flores rosas e brancas, chamadas pelo guia de Manacá da Serra. O Parque Estadual do Jacupiranga, mesmo envolto em neblina nos encanta. Os enormes caminhões dos grandes frigoríficos passam por nós às dezenas, devagarinho, por causa das inúmeras curvas da estrada e do aclive acentuado. A represa de Capivari , rodeada de grandes árvores e muito verde nos mostra que a Serra do Mar ainda tem salvação... Curitiba é uma linda cidade. Limpa, população educada, sistema de transporte público invejável. É chamada de cidade modelo com toda razão. A guia local, Laura, deu uma aula sobre a história da cidade e nos levou para conhecer o jardim botânico da cidade. Que espetáculo! Jardins ingleses (franceses?) lindíssimos. O Palácio de Cristal, em toda sua imponência, abriga espécies botânicas que não resistiriam ao rigoroso inverno de Curitiba. O sol forte não intimida os casais de quero-quero que fazem seus ninhos em pleno gramado e defendem seus graciosos filhotes com corridinhas desengonçadas pra cima dos visitantes. De lá fizemos um passeio pela Ópera de Arame, Pedreira Paulo Leminsky e Parque Tanguá. Tudo muito bem cuidado, com boas informaçãoes para o turista. Vê-se claramente que a cidade é organizada e que tem seu sistema de segurança e transporte funcionando como em poucas cidades brasileiras. O Hotel Paraná Suite fica bem próximo do Shopping Estação, onde a imponente fachada da antiga estação ferroviária foi preservada, com seus relógios enormes, dando um toque europeu àquela região da cidade.
Fomos andando até à Av. XV de Novembro, antiga Rua das Flores, onde já ficamos hospedados há mais de 30 anos. Entre um chope e outro, observamos o bondinho vermelho, onde nosso filho, hoje com 32 anos, brincou de desenhar e colorir. Foi como viajar ao passado...
Jantar em Santa Felicidade, no Ristorante Siciliano foi uma volta à Itália. A fachada reproduz as colunas do Forum Romano, o vinho da casa é muito frutado e doce. Não deu pra encarar. O cantor se esforçou para ser ouvido entoando cançonetas clássicas do sul da Itália, mas foi em vão. Os turistas barulhentos, o barulho dos pratos, os garçons apressados...
No final já estávamos escutando o chamado da cama, que atendemos de bom grado. Amanhã mais uma longa jornada nos espera...

Esse post vai para o Luisinho, guia da São José, que transformou nossa viagem num maravilhoso passeio com os amigos. parabéns pelo profissionalismo, competência e companheriismo.

CURITIBA - Verde -amarelo

Posted by Picasa Flores enfeitam a vida !

sábado, 22 de dezembro de 2007

NATAL - De perus e Internet

"Ninguém morre antes da hora, a não ser o peru, que morre na véspera (do Natal)"


Acabo de ver decretada a extinção do famoso livro (ou caderno) de receitas. Resolvi pedir uma ajudazinha ao Google para um peru de Natal mais sofisticado. Cansei do peru à brasileira, com farofa de ovos ou torresminhos de bacon. Não quero peru à Califórnia, com aquele indefectível doce de pêssego, ameixas pretas e cerejas. Quero inovar. Surpreender meus amigos. E não é que eu é que fiquei surpreendida? Imaginem que só de peru são mais de quinhentas e noventa e cinco mil receitas. Pode conferir. Tem peru pra todo gosto. Recheado com camarões, com couscous marroquino, com molho de funghi, com carne de porco. Com maçãs caramelizadas, com gorgonzolla, ou castanhas. Desossado, fatiado, dourado. Com cobertura crocante ou cremosa. Tem uma receita do Alentejo (Portugal) sugerindo que o peru ficará mais gostoso, se obrigado a voar antes do abate. Ele deve ser embriagado com uma boa talagada de pinga, ou whisky de boa qualidade para amaciar a carne e deixá-la suculenta. Como pode a pobre ave voar completamente bêbada??? Descobri ainda, durante essa pesquisa, a história do peru. Ele é originário da América do Norte. Foi lá que Colombo ficou conhecendo o dito cujo. Até hoje os perus selvagens são muito apreciados na terra do Tio Sam, principalmente durante as festas de Ação de Graças.
Aqui, na Terra Brasilis, consideramos indispensável , às vezes obrigatório, assá-lo para a ceia de Natal. Não sei bem porque, pois o peru que assamos dia 24, com certeza estará na geladeira no dia 31 para ser reciclado para as festas de Ano Novo. Apesar de muitos não quererem comer bicho que cisca pra trás, pra não atrasar a vida no ano que se inicia.
Voltando à receita de peru assado, fiquei perdida entre tantos sites e chefs, receitas e explicações pouco convincentes. Resolvi então comprar um já bem mortinho, macio, previamente embebedado pela Sadia ou Perdigão e com um termômetro que pula quando ele estiver assado. Na hora eu resolvo o que fazer. Coloco por cima alguma coisa que tiver na geladeira e por dentro qualquer coisinha que tiver no armário. Fica mais fácil que procurar ler e entender mais de meio milhão de receitas (só em português, ouviu bem?). Se você domina outra língua vai ter um pouco mais de opções. Também resolvi que vou jogar fora todos os meus caderninhos de receitas copiadas da vovó, da mamãe, da Ofélia e da Ana Maria Braga. Vou sempre apelar pra internet, mesmo que os almoços de domingo não fiquem lá grande coisa. É bem mais moderno e atual. Experimental. Virtual...


Esse post vai para o Cristiano que não concebe uma ceia de Natal sem o famigerado peru e para a Raquel que não sabe o que fazer com aquele, que está na geladeira esperando para ser assado ainda em 2007.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

HISTÓRIAS INFANTIS - Quanta sutileza!

" Eu sou o lobo mau, lobo mau, lobo mau. E pego as criancinhas pra fazer mingau.""


Recebi de uma amiga uma dessas mensagens que nos faz pensar sobre as bobagens que falaram com a gente quando éramos crianças e que repetimos aos nossos filhos e agora aos nossos netos. A tal mensagem analisava as letras das musiquinhas infantis brasileiras. O boi da cara preta vai pegar a pobre criancinha que tem medo de careta e a famigerada Cuca agarrar o nenen cujo pai foi pra roça e a mãe foi trabalhar. Que irresponsáveis!
Atirei o pau no gato é outra pérola. Mesmo não morrendo da paulada, o bichano e seu berro sofrido causam a admiração na tal da Dona Chica-ca-ca. A discriminação e a desigualdade social são cantadas em prosa e verso quando eu sou pobre, pobre, pobre e me afasto dando marré de si. O Bitu não vem cá, porque morre de medo de apanhar. E se não me engano isso está previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente... E dá cadeia. Quando a canoa virou foi fácil botar a culpa na Maria que não soube remar, incentivando o mal caratismo. A pobre da Sambalelê está doente e com a cabeça quebrada e mesmo assim vai levar umas boas palmadas. A arrogância, talvez do sargento, manda o soldado marchar direito, senão vai preso pro quartel, lembrando os anos da ditadura militar.
O Cravo brigou com a Rosa e ficou ferido , chegando a desmaiar. A Rosa pôs-se a chorar, mas o mal já estava feito e como em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher...
Ao pensar um pouco nas trágicas letras dessas inocentes musiquinhas, comecei a lembrar das histórias que contamos para as crianças e que, há tempos, nos contaram também.
A mãe do Chapeuzinho Vermelho manda a pobre menininha para a floresta, mesmo sabendo que lá mora um terrível lobo mau. A Branca de Neve, é levada para a floresta por um caçador serial killer que vai arrancar o coração de seu peito para entregar à cruel madrasta. Ela consegue escapar e vai morar com sete anões (talvez tarados), até ser envenenada e beijada por um príncipe bicha (se ele usava aquelas calças apertadinhas e capa esvoaçante, era bicha com certeza). Mesmo sendo quem é, o tal príncipe se casa com ela sem questionar a vida promíscua que ela vinha levando com os sete homenzinhos na floresta. Um espanto!
Os pais de João e Maria os abandonam numa outra floresta (num claro ato de abandono de incapaz). Ali eles ficam à mercê de uma bruxa antropófaga que gosta de carne gorda. Lembro ainda da Rapunzel, mantida em cárcere privado por anos a fio, da Bela Adormecida drogada (e talvez abusada) em seu casto leito virginal e assim por diante. Isso tudo sem falar nos Três Porquinhos, que acabaram "cozinhando" o lobo mau (que é um animal em franco processo de extinção - e extinção é para sempre). O Gato de Botas era um farsante que se deu bem, provando que a mentira e a canalhice combinam com qualquer um, não só com os políticos... O Pinóquio era mentiroso, traidor e cheio de problemas de comportamento, apesar dos esforços do Grilo Falante para colocá-lo na linha...
Acho melhor parar por aqui. Chego a conclusão que os traumas de infância estão bem justificados, assim como a violência das crianças, a falta de limites e o desrespeito pelo que é certo...
Esse post vai para a Narinha, musa inspiradora do Márcio, tocador de rebolo

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A MENINA DO AFEGANISTÃO

" Por todas as crianças que sofrem os horrores das guerras, do preconceito e do fanatismo, arrancando um pedaço do coração da gente, rogai por nós"


Menina do Afeganistão que ficou olhando pra mim na foto do jornal, como se pedisse socorro contra as bombas, os mísseis e contra as ordens do Talibã que já estabeleceram para ti um destino cruel: - Não mostrarás o teu rosto quando cresceres. Não terás direito algum. Não sonharás nenhum sonho de todas as moças do mundo. Não poderás estudar. Nunca estarás no meio das canções dos estádios, no meio dos debates literários, nas lanchonetes e nos cinemas dos shoppings. Jamais estarás na minha festa nem na minha alegria.
Eu vejo e peço a Deus e a Alá que te protejam contra as bombas, a fome e as ordens da milícia Talibã. Eu invoco a Deus e a Alá, para que te protejam. Deus dos humilhados e dos ofendidos. Deus dos aflitos e dos desprotegidos. Alá das crianças e dos beduínos, dos camelos e dos sonhadores do mundo árabe. Alá dos que carregam um sonho no coração como um vulcão clandestino.
Deus ou Alá tirai um pouco de mim para dar à menina do Afeganistão. Tirai do meu pão. Da minha alegria. Polvilhai a menina do Afeganistão com a minha esperança. Levai minha paz para a menina do Afeganistão. Eu vou jejuar por ti, vou sonhar e rezar por ti. Vou pedir a Deus e a Alá que ti façam mais forte que a fome e que a guerra. Mais forte que a tirania.
Aviões dos donos do mundo, guardai vossas bombas em nome da menina do Afeganistão!
Mísseis dos senhores da terra, adiai a morte em nome da menina do Afeganistão!



(Adaptação da crônica de Roberto Drumond, publicada no Estado de Minas de 9 de outubro de 2001)

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Eficiência Postal


"Pobre daquele que não guardou consigo um pouco de bom humor."

- Há muito que eles deveriam ter mandado o tal remédio! O menino não se agüenta mais com essa chieira no peito. Essa asma está acabando com ele!
Januária, alarmada com a última crise do sobrinho, resmungava enquanto colocava os pratos e talheres na grande mesa da sala de jantar.
-Pensando bem, há mais de dois meses que eu escrevi ao Gonzaga pedindo urgência nessa remessa, e até agora nada. Primeiro dizem que o tal pozinho é milagroso, barato, fácil de encontrar... Agora ficam nessa demora?
- Calma tia, Portugal não fica ali na esquina. Talvez eles tenham tido alguma dificuldade burocrática para remeter o remédio. Mais dia menos dia, sua encomenda chega e o “queridinho” vai ficar bom de vez. Agora o que eu quero mesmo é comer, porque a fome é negra - disse Beto, o mais sensato dos três rapazes.
Januária continuou a resmungar contra o irmão que morava em Lisboa, como se ele pudesse ouvi-la.
Passados uns quinze dias dessa conversa e da última crise do “queridinho” chega um aviso dos Correios, que lá se encontrava um pacote e que o mesmo deveria ser apanhado pelo destinatário.
Beto se prontificou a ir buscar a tal remessa.
Januária, logo que abriu o embrulho se deparou com um pequeno estojo de madeira, bem embalado e com tampa de metal, contendo um pó escuro e fino. Cheirou, tornou a cheirar e comentou: - Não fede nem cheira!
Procurou alguma instrução, carta, bilhete... Nada!
- Parente é mesmo gente imprestável! Agora que mandaram o remédio temos de adivinhar o resto.Tem nada não! Uma colher de chá pela manhã, ao acordar e outra colher à noite, antes de dormir e o pobrezinho não vai mais padecer com essa moléstia dos infernos.
- Realmente... O menino não teve mais nenhuma noite em que o ar era buscado freneticamente, a boca aberta, os olhos injetados, o peito arfante. Engordou, estava corado e saudável. Foi um milagre o santo pozinho!
Januária, feliz, não se cansava de contar aos amigos e vizinhos. E já faziam três meses! Todas as manhãs e todas as noites, religiosamente, uma colher de chá remédio, vindo da “terrinha”.
O telegrama do Gonzaga chegou avisando que desembarcaria no Rio e, na segunda-feira, estaria com os parentes para contarem as novidades e colocarem os assuntos em dia.
Foi um rebuliço! Todos queriam ver o tio que há tanto tempo se fora para terras distantes. O almoço, preparado com carinho, a cachacinha do norte de Minas, a sobremesa de doce de leite com queijo fresquinho e o cafezinho servido na bandeja, na grande varanda. Todos conversando e o Gonzaga a fumar um enorme charuto, hábito adquirido em outras terras: - Pois é... agora teremos de decidir o que vamos fazer com as cinzas da tia Eufrásia que enviei a vocês. Coitada! Estava tão velhinha... Mas como expliquei “naquela carta”, ela pediu em seu leito de morte que não queria ser enterrada longe da pátria que ela tanto amava!

Escrevi essa crônica no Acuruí, em 1986 . Foi publicada no Estado de Minas, no mesmo ano.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

VIDA, MORTE, VIDA


"Deus não deu às mães o dom de transmutar o mal. De vencer os guerreiros da morte..."

Não. Não quero chorar por ele que foi tão cedo.

Deixou uma mulher sofrida e exausta, uma filha adolescente desesperada e um garotinho que ainda não entendeu que a morte é para sempre...
Sua mãe era a imagem da dor. O pai andava sem rumo, se perguntando o porquê dessa partida tão prematura.
Irmãs e irmãos tentando se lembrar dos momentos felizes, vividos na infância despreocupada. Os amigos, que não souberam de sua avassaladora doença, não conseguiam assimilar a realidade ali presente.

A vida é apenas um breve instante... Pequenino intervalo entre duas datas, a do nascimento e a da morte. Não adianta falar na saudade que é certa, compor frases fúnebres, recitar o desalento. Tudo só vai conseguir rimar com o nunca mais.

O que parece despedida é apenas um até breve. A tristeza jamais poderá ser desespero, a lembrança não será tortura, porque todos que confiam e têm esperança sabem que os olhos que se fecham para as trevas e para o sofrimento se abrirão para a LUZ. Esse fim é apenas o começo real. Vamos caminhar com a serenidade daqueles que sabem que não estamos nos despedindo e que dentro desse imenso vazio nasce a esperança-certeza de que um dia não haverá mais a necessidade de se sentir SAUDADE . O reencontro feliz, com certeza, se dará...



Neyriston,
Siga em paz ! Vá trilhando seu caminho de Luz....
E se der, cante uma canção....