quinta-feira, 13 de março de 2008

Olhar sem ver a rotina de cada dia

Não posso mais dirigir. Então pego carona com uma amiga. Antes das sete horas já estou em pé, do outro lado da rua esperando por ela. E fico ali, observando coisas que nunca via, em minha própria casa, na minha rua, no lugar onde vivo há mais de quarenta anos. As laranjas já quase maduras na velha laranjeira, os passarinhos que fizeram ninho nos beirais do telhado, o pinheiro que está todo torto, precisando de uma poda para que no Natal já possa ser enfeitado com luzinhas coloridas. O prédio do fundo está em obras. Dois gaviões ficam pousados, todos os dias na grade da cobertura, imóveis, esperando não sei o quê. Passa uma van escolar com crianças sonolentas. O vizinho tira o carro e vai embora com o adolescente resmungão. Um jovem casal se despede na esquina com um beijo. A velha vem com seu insuportável cachorrinho basset, fazer cocô no meu portão. Passa a mulher mal humorada dirigindo um Siena, com um barbudo no banco do passageiro, também com cara de poucos amigos. O operário, fumando um cigarro, caminha apressado com sua mochila velha, disfarçando a indisfarçável marmita. O estudante pára a bicicleta com medo do carro que atravessa perigosamente, sem olhar quem vem de lá. Isso tudo acontece num espaço de cinco a dez minutos. Todos os dias. Rotineiramente. Aí chega a a carona e lá vou eu pra escola. Com certeza, na rotina de lá tem muita coisa que olho sem ver. Vou prestar mais atenção.



Todo dia ela faz tudo sempre igual....

quarta-feira, 12 de março de 2008

EMJP - Como gostar de reuniões - Guia Prático



"Que fique claro que a idéia não é minha. Recebi um pps sobre o tema, gostei e adaptei para uso imediato".

As reuniões, sejam elas quais forem, são sempre iguais. Enfadonhas e medonhas.... Nada se resolve, discute-se muito, bebe-se litros de café, escuta-se muita bobagem e tudo continua como sempre esteve, sem qualquer modificação significativa. Desde que comecei a trabalhar em 1985, um longínquo ano do século passado, já devo ter participado de umas três ou quatro mil reuniões, das quais não me lembro de nenhuma especificamente. Quer dizer, para ser mais exata, lembrei-me de uma, em que desenhei uma blusa para mim e que, depois de pronta ficou linda. Muitas dessas reuniões, eu registrei em atas, lavradas com capricho e, porque não dizer, competência. Quanta modéstia! Nas reuniões sempre são usadas palavras escolhidas e que mudam de acordo com o que está na moda. Já usamos expressões como: objetivos a serem alcançados, eixos norteadores, interdisciplinaridade, letramento, momentos lúdicos, idade de formação. Já passamos por verbos bastante complexos: experienciar, socializar, vivenciar, sistematizar, agilizar e, mais recentemente, inferir. Já tivemos oportunidade de observar toda a criatividade da elite pensante em alguns termos como: paradigma, transversal, tempos e espaços, levantamento de demandas, valor agregado e a famigerada troca de experiências. Tivemos a safra de escola inclusiva, outro viés, um norte a ser alcançado, levantamento de demandas. Agora temos a satisfação de aprendermos sobre Escola Aberta e outros neologismos.
Concordo que, realmente, é difícil gostar de reuniões. Mas um modo simples e criativo pode ser adotado para que a gente se aborreça menos nas próximas, que com certeza virão.
1- Imprima a lista abaixo antes de começar a reunião.
2- Leve uma caneta vermelha.
3- Sempre que ouvir uma das palavras ou expressões contida nessa listagem, marque-a com um X (xis vermelho) .
3-Quando completar 5 marcas, grite BINGO!

Com certeza a reunião ficará menos tensa, menos cansativa e estressante. Talvez você até passe a esperar ansiosamente por ela. É a implementação do lúdico. Claro que podemos acrescentar ou mudar alguma palavra. O jogo é democrático. Pode-se comprar um brinde para os ganhadores, de preferência com cartão corporativo, o que tornará o jogo ainda mais atraente.

  • Rendimento
  • Avaliação
  • Parceiro
  • Estratégia
  • Resultados
  • Projeto
  • Implementação
  • Rendimento
  • Otimização
  • A nível de
  • Efetivamente
  • Parceiros
  • Mentalidade
  • Análise
  • Formulação
  • Currículos
  • Implantação
  • Estruturação
  • Estatisticamente
  • Capacidades
  • Etnia
  • Meio ambiente

Pode acontecer de algum participante gritar BINGO com menos de cinco minutos. Não tem importância. É só começar de novo....

sábado, 8 de março de 2008

ASTOR - Ele foi um bom companheiro




Quando nosso vira-lata Fantasma morreu, a tia trouxe de presente aquele bichinho cinzento de espertos olhos azuis. Chorava a noite inteira, incomodava os vizinhos e mais ainda aos donos (nós). Logo começou a morder tudo e todos. Não era bem MORDER, era mais um frenético mastigar. Houve época em que todos da casa tinham alguma marca dos dentinhos dele. Agitado, barulhento, hiperativo. Cresceu mais do que imaginávamos. Numa brincadeira, quebrou o nariz do Leo, que teve de passar por uma cirurgia dolorosa. De outra feita, ao vermos algumas moscas varejeiras voejando no jardim, desconfiamos de que havia algo errado. Simplesmente, ele havia desenterrado um enorme gato, já em estado lastimável, e levado pra dentro da sua casinha. Havia matado o bichano já a alguns dias e sepultado o pobre num enorme buraco escavado num canteiro debaixo de margaridas. Foi uma luta convencê-lo a deixar um horrorizado Danilo e a empregada fazer a necessária faxina, com sacos plásticos pra embalar o dito gato, cloro, vassoura e muita água. Adorava passear. Era ver alguém de tênis pegando a guia para entrar em desespero. Latia, corria para o portão, voltava para quem, talvez o levasse para correr ou caminhar. Desobediente, ameaçava morder quando era contrariado. Quando entrava dentro de casa, só saía se ganhasse um pão ou um biscoito, senão arreganhava os dentes, cheio de atitude e razão. Não aceitava ficar preso na corrente. Protestava, latindo para o quarteirão todo ouvir. Mesmo assim era considerado um habitante da casa. Era da família. Ninguém confiava que ele não ia avançar e mesmo tendo sido adestrado, não era fácil fazê-lo obedecer, em determinadas situações. Era grande demais. Pesava mais de 40 quilos, sem ser gordo. Volta e meia era levado ao veterinário para resolver algum probleminha de saúde. O mais importante era o fato de morder, insistentemente, as pernas e pés, dando vazão ao estresse crônico. Tentamos por duas vezes arrumar uma namorada pra ele, mas era muito exigente e não agradou das "garotas". Cada vez que era deixado sozinho, uivava como um lobo das estepes, atormentando o bairro inteiro. Claro que a gente não sabia, pois quando chegava alguém, era só alegria, pulos, abanos de rabo, respiração ofegante. O Leo era o dono, escolhido por ele. Adorava quando sentia a presença daquele que lhe dava atenção gratuita, carinhos, garrafas pet para brincar.... Que rolava com ele no chão, o levava para correr na avenida, tratava dos seus machucados, lhe dava banho e afagos... Eu nunca tive muita intimidade com cachorro. Mas admirava aquele animal magnífico! Bonito como poucos, forte, indisciplinado, carente.... Seu olhar "pidão" dizia tudo. Parecia que, um dia, ainda ia aprender a falar. Pela manhã, quando acordávamos, ia buscar o jornal, que trazia a galope. Um amigo nosso dizia que ele mais parecia um Mangalarga Marchador. Quando cheguei do hospital, na cadeira de rodas, durante um bom tempo, ele só cheirava o meu pé direito, que ficou insensível, por causa de uma hérnia de disco. À medida que fui melhorando ele parou com isso. Por que será? Cheirava, deitava perto de mim e ficava ali, me olhando com seus olhos cor de âmbar, numa tristeza infinita, acompanhando a depressão, que naquela época, insistia em me acompanhar. Dia vinte e nove de fevereiro ele teve um desmaio, não conseguiu mais ficar em pé. Foi levado para a clínica e, no dia três de março, teve de ser sacrificado. Esse Weimaraner que viveu conosco durante nove anos, será sempre lembrado como um ser especial. Voluntarioso, desajeitado em alguns momentos, extremamente elegante em outros o Astor foi um bom e fiel companheiro.


Esse post vai para o Leo que sempre foi o fiel amigo desse cão e pra Bebela, que não queria que o "AUAU" fosse pro céu.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Carta aberta ao meu primo Ricardo


Querido primo,
Tenho tido notícias suas através de suas irmãs. Sei que você tem feito sessões de químio e que vem enfrentado com coragem e determinação mais esse desafio. Você se queixa do tal "canal projetado para a saída de líquidos" estar sendo exposto e manipulado. Pois eu lhe digo uma coisa, caro primo. Quando estive no CTI, essas questões morais começaram a incomodar. Comecei a sofrer mais por causa disso. Então resolvi que tinha coisas mais importantes com que me preocupar. O sofrimento físico já era grande demais pra ficar prestando atenção em fraldão, sonda na uretra, negão me dando banho, injeção no traseiro, comadre e dependência total e absoluta de pessoas desconhecidas. Quer saber mais? Pra médico e equipe de enfermagem isso é rotina. Sai você, entra outro paciente. Aproveite pra transformar esses pequenos pesadelos em momentos de reflexão. Palavras doces como afeto, carinho, amizade, família, amigos, incentivo, coragem, otimismo e esperança. Lembre-se que Rubem Alves já disse um dia: Otimismo é quando a gente está certo que o caminho é seguro e você vai passo a passo. A esperança é quando não tem caminho e você abre as asas e voa. E é nesse voar, meu amigo, que encontramos tempo para admirar a paisagem da nossa vida. E, também, é nesse voar que começamos a idealizar as novas paisagens, coloridas, plurais, multifacetadas. E também novas certezas, novas dúvidas, novos planos, novos sonhos e novos recomeços. Muitos recomeços...
É assim prezado Ricardo, que vamos vivendo. Um dia de cada vez. O destino, volta e meia, teima em nos pregar peças, para aprendermos , no futuro a dar boas gargalhadas. Tenho certeza que esse futura está bem próximo. Um grande abraço e meu carinho,
JULIETA
PS... Hoje, ao ler sua mensagem, lembrei-me de um certo pub londrino, onde nos encontramos, num dia chuvoso, no século passado, para beber cerveja e jogar conversa fora....

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

COMIDINHAS - Quem sabe faz ao vivo

"Cozinhar é um jeito carinhoso de agradar a gregos e troianos"


















Acabando de fazer as compras num grande supermercado propus um sanduíche.... Comecei a escolher alguns frios, queijos e pães, quando o Leo, observando as minhas compras sugeriu, sem mais nem menos, que o o nosso lanchinho da tarde se transformasse num jantar de gala. Devolvi humildemente o que já estava no carrinho, enquanto ele apanhava, displicente, alguns camarões, anéis de lula e um punhadinho de mexilhões. Acho que comprou um filé de peixe. Não me lembro bem... Já em casa, buscou na geladeira pimentões vermelhos e amarelos, descascou as cebolas, amassou dentes de alho. Já com a velha frigideira no fogo, deu início ao preparo da paella. Ou seria um risoto? Um bom azeite despertou os aromas do alho e da cebola. O arroz arbóreo , o açafrão da terra, os frutos do mar... tudo a seu tempo, tudo cuidadosamente incorporado ao preparo do alquimista. O sal, a pimenta do reino, o vermelho vivo dos pimentões e por fim a cebolinha. Pronto... Um vinho branco e , em menos de uma hora, em vez de um prosaico sanduíche de salaminho, estávamos degustando um prato fantástico, que me levou de volta às terras espanholas. Eu, ele e a Rê sentamos na cozinha mesmo e ficamos alí, entre " HUUUMMMMS" e suspiros comendo e conversando até mais tarde. Claro que amanhã a marmita da Rê vai ser invejada ... Não é toda quarta-feira que se tem o privilégio de um chef à nossa disposição.

Esse post vai para o Leo, filho querido, que a esta hora deve estar contemplando a lua na Chapada dos Guimarães. Observem que existe apenas um camarão virado ao contrário. A culpa foi minha que estraguei completamente a estética do prato...

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

REDE GLOBO _ Plim! Plim! Uai...

Ser mineiro é dizer "uai", é ser diferente, é ter marca registrada, é ter história pra contar, é viver na cidade e manter os costumes da roça."
Recebi um telefonema de uma editora de jornalismo da Rede Globo, dizendo que uma conhecida minha havia lhe contado que a minha casa era uma típica morada de mineiros, de alma e jeitim das geraes. No sábado, convoquei a turma para lanchar mineiramente e enchi a mesa de quitandas e quitutes. Arroz doce com canela, mingau de milho verde, broa de fubá, rosca da rainha, pedaços de rapadura, sequilhos, rosquinhas e pão de queijo, geléia, milhim cozido goiabada e, como não podia deixar de ser, um bom queijo do Serro, bem fresquim. A Marlene chegou com o bolo de mandioca e a massa do biscoito de polvilho pra fritar no fogão a lenha, que é uma das suas grandes paixões. Catarina já foi cortando as bananas da terra, enchendo com a manteiga da roça, a canela e o açúcar. A Elen queria o Pedro Bial ou o Gianechinni... O bom repertório de piadas ficou por conta da Miriam e do Zé Alves. A Renata, com a tímidez que lhe é peculiar, resolveu bancar a babá da Isabela pra não ter de aparecer. Dois câmeras, uma editora e a jornalista Narriman Sible chegaram e começaram logo o trabalhar, a estudar os melhores ângulos, a luz, o texto... Escolheram as pessoas, pediram silêncio da galera e começaram as gravações. Era gravar e gravar de novo. Tornar a gravar e repetir. Isso levou a tarde inteira. Um café cenográfico foi para dentro de uma chaleira que pertenceu à minha avó, a carranca de Pirapora foi pra cima da pia, o Danilo falando mais entusiasmado que o William Bonner, a Marlene brigando com a fumaça e o fogo para conseguir fritar os maravilhosos biscoitos, a Miriam , o Jô e o Zé ameaçando contar piadas impróprias para a equipe da Globo, a Camila documentando tudo, o Rodrigo e a Cecília divertindo-se com a confusão... A toda hora alguém comia uma coisim. Nós, e eles também. A fome e o cheirinho do café desafiavam nossos sentidos. Não dava pra resistir.... Depois de muito grava e regrava, finalmente o trabalho terminou. Sentamos todos em volta da mesa, tomamos o café quentim e, aí sim, comemos tudo o que tínhamos direito. Arrumei uma matula pros rapazes que iam pra Caeté gravar o Minas ao Luar, despedimo-nos das moças e ainda ficamos jogando conversa fora até tarde. Só esquecemos do principal. Perguntar em que programa vamos nos tornar "estrelas globais".

Esse post vai para Miriam que tem o sonho de trabalhar na Malhação e, como talento não lhe falta, com perseverança e fé ela ainda chega lá.



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

EMJP - VOLTANDO

" ...as coisas findas, muito mais lindas, essas ficarão." C. Drummond de Andrade

Hoje voltei ao trabalho, depois de dois anos afastada. A Escola está lá. Do mesmo jeitinho. As amigas me abraçam com carinho. Sou recebida por todos com entusiasmo e alegria. Escuto palavras de afeto e fico pensando ... É a vida que vai rompendo barreiras, como um rio, que em alguns momentos corre calmo e em outros é correnteza que arrasta e destrói... Penso em quanta coisa aconteceu nesses mais de seiscentos dias. Uma amiga perdeu entes queridos em um acidente, a outra comemora a barriga que deve "desocupar" em breve, alguém aguarda com ansiedade o mês de maio para se aposentar.... Desocupo um armário, jogo fora os papéis velhos, limpo gavetas onde velhos fantasmas costumam se alojar... Quero tudo limpo, vazio, virgem... onde eu possa gestar novas idéias, novos sonhos, novas metamorfoses. A beleza da vida consiste em reinventá-la a cada novo dia. E é isso que eu vou fazer... Reinventar a VIDA.

Esse pequeno texto vai para todos aqueles que me ajudaram a poder, enfim, falar a palavra VIDA