quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Eficiência Postal


"Pobre daquele que não guardou consigo um pouco de bom humor."

- Há muito que eles deveriam ter mandado o tal remédio! O menino não se agüenta mais com essa chieira no peito. Essa asma está acabando com ele!
Januária, alarmada com a última crise do sobrinho, resmungava enquanto colocava os pratos e talheres na grande mesa da sala de jantar.
-Pensando bem, há mais de dois meses que eu escrevi ao Gonzaga pedindo urgência nessa remessa, e até agora nada. Primeiro dizem que o tal pozinho é milagroso, barato, fácil de encontrar... Agora ficam nessa demora?
- Calma tia, Portugal não fica ali na esquina. Talvez eles tenham tido alguma dificuldade burocrática para remeter o remédio. Mais dia menos dia, sua encomenda chega e o “queridinho” vai ficar bom de vez. Agora o que eu quero mesmo é comer, porque a fome é negra - disse Beto, o mais sensato dos três rapazes.
Januária continuou a resmungar contra o irmão que morava em Lisboa, como se ele pudesse ouvi-la.
Passados uns quinze dias dessa conversa e da última crise do “queridinho” chega um aviso dos Correios, que lá se encontrava um pacote e que o mesmo deveria ser apanhado pelo destinatário.
Beto se prontificou a ir buscar a tal remessa.
Januária, logo que abriu o embrulho se deparou com um pequeno estojo de madeira, bem embalado e com tampa de metal, contendo um pó escuro e fino. Cheirou, tornou a cheirar e comentou: - Não fede nem cheira!
Procurou alguma instrução, carta, bilhete... Nada!
- Parente é mesmo gente imprestável! Agora que mandaram o remédio temos de adivinhar o resto.Tem nada não! Uma colher de chá pela manhã, ao acordar e outra colher à noite, antes de dormir e o pobrezinho não vai mais padecer com essa moléstia dos infernos.
- Realmente... O menino não teve mais nenhuma noite em que o ar era buscado freneticamente, a boca aberta, os olhos injetados, o peito arfante. Engordou, estava corado e saudável. Foi um milagre o santo pozinho!
Januária, feliz, não se cansava de contar aos amigos e vizinhos. E já faziam três meses! Todas as manhãs e todas as noites, religiosamente, uma colher de chá remédio, vindo da “terrinha”.
O telegrama do Gonzaga chegou avisando que desembarcaria no Rio e, na segunda-feira, estaria com os parentes para contarem as novidades e colocarem os assuntos em dia.
Foi um rebuliço! Todos queriam ver o tio que há tanto tempo se fora para terras distantes. O almoço, preparado com carinho, a cachacinha do norte de Minas, a sobremesa de doce de leite com queijo fresquinho e o cafezinho servido na bandeja, na grande varanda. Todos conversando e o Gonzaga a fumar um enorme charuto, hábito adquirido em outras terras: - Pois é... agora teremos de decidir o que vamos fazer com as cinzas da tia Eufrásia que enviei a vocês. Coitada! Estava tão velhinha... Mas como expliquei “naquela carta”, ela pediu em seu leito de morte que não queria ser enterrada longe da pátria que ela tanto amava!

Escrevi essa crônica no Acuruí, em 1986 . Foi publicada no Estado de Minas, no mesmo ano.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

VIDA, MORTE, VIDA


"Deus não deu às mães o dom de transmutar o mal. De vencer os guerreiros da morte..."

Não. Não quero chorar por ele que foi tão cedo.

Deixou uma mulher sofrida e exausta, uma filha adolescente desesperada e um garotinho que ainda não entendeu que a morte é para sempre...
Sua mãe era a imagem da dor. O pai andava sem rumo, se perguntando o porquê dessa partida tão prematura.
Irmãs e irmãos tentando se lembrar dos momentos felizes, vividos na infância despreocupada. Os amigos, que não souberam de sua avassaladora doença, não conseguiam assimilar a realidade ali presente.

A vida é apenas um breve instante... Pequenino intervalo entre duas datas, a do nascimento e a da morte. Não adianta falar na saudade que é certa, compor frases fúnebres, recitar o desalento. Tudo só vai conseguir rimar com o nunca mais.

O que parece despedida é apenas um até breve. A tristeza jamais poderá ser desespero, a lembrança não será tortura, porque todos que confiam e têm esperança sabem que os olhos que se fecham para as trevas e para o sofrimento se abrirão para a LUZ. Esse fim é apenas o começo real. Vamos caminhar com a serenidade daqueles que sabem que não estamos nos despedindo e que dentro desse imenso vazio nasce a esperança-certeza de que um dia não haverá mais a necessidade de se sentir SAUDADE . O reencontro feliz, com certeza, se dará...



Neyriston,
Siga em paz ! Vá trilhando seu caminho de Luz....
E se der, cante uma canção....

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

BUENOS AIRES - Mi Buenos Aires Querida


"...e senti Buenos Aires. Esta cidade que acreditei ser meu passado, é meu porvir, meu presente...eu estava sempre (e estarei) em Buenos Aires. ( Luis Borges)


24/02/04

Já estamos navegando nas águas do Rio da Prata. O navio está bem mais estável que ontem. As águas são barrentas, não há ondas, nem o rastro de espuma que nos encanta. Do convés, já se observam embarcações de pesca e pequenos cargueiros ao longo do rio. Não vemos as margens, mas sabemos que não estamos mais navegando em águas marinhas. O sol está quente e o dia muito claro.

Impressionante como conseguem atracar um navio de 200 metros de comprimento tão encostado na amurada do cais. Eu não consigo encostar o meu minúsculo Ford KA tão coladinho ao meio-fio. O porto de Buenos Aires é enorme e muito movimentado e fica bem perto do centro. Andamos um pouco, já sentindo o jeito moderno da cidade. Largas avenidas, (muito largas por sinal), pessoas andando apressadas. Trânsito intenso, mas sem congestionamentos. Não demoramos a pegar um táxi, já treinando nosso portunhol em grande estilo. Rodamos pelas avenidas movimentadas vendo os plátamos centenários, que são maioria na arborização da cidade. As praças são inúmeras, coloridas pelas velhas paineiras inteiramente floridas. O dia claro encheu Buenos Aires de luz, só pra nos receber.
Trocamos alguns pesos em uma casa de câmbio e saímos a pé em direção à Casa Rosada. É realmente o maior marco da cidade, plantada na lateral de uma imensa e bonita praça cheia de turistas, vendedores de lembrancinhas e estudantes namorando, conversando, tomando sorvete.
A Catedral Metropolitana tem uma arquitetura belíssima, foi construída no início do século XVII, em estilo neoclássico. O piso, que está sendo restaurado, é uma composição floral de mosaicos minúsculos e coloridos. Lindíssimo! O túmulo do General José de San Martin, o herói da independência das Províncias Unidas do Prata, é guardado 24 horas pelos jovens soldados da Guarda Nacional.
Caminhamos pela Avenida 9 de Julho (dizem que é a mais larga avenida do mundo) até o imenso obelisco de 67 metros de altura. A cidade é plana, o que nos convida a caminhar.
Pegamos outro táxi e fomos pra Recoleta, que é um dos bairros mais nobres da cidade, com excelentes restaurantes, cafés, antiquários, bares, discotecas... Entramos no famoso Cemitério da Recoleta onde caminhamos entre os mausoléus adornados com esculturas antigas. Não há um só túmulo baixo. Todos têm nomes das tradicionais famílias portenhas. Seguimos um grupo de turistas alemães, até o túmulo de Evita, cheio de recados e flores plásticas mostrando que a mulher de Perón ainda tem inúmeros e ardorosos fãs na Argentina. Todos tiram uma foto diante dele. Saímos do cemitério e entramos na Basílica Menor de Nuestra Señora Del Pilar, em estilo barroco, do século XVIII. Rezamos um pouco perante altares de ouro com imagens bem típicas da cultura espanhola.

Caminhamos preguiçosamente por avenidas e ruas, sentindo o calor do sol e da cidade.

Voltamos ao navio, fizemos um lanche rápido e partimos para o show do Señor Tango. Indescritível! A casa noturna fica ao sul da cidade e tem capacidade para mais de mil pessoas. São três andares, com colunas e molduras de fotos iluminadas por microlâmpadas, paredes vermelhas e peças artísticas retratando a história do tango. A casa já estava cheia quando chegamos. O show é coisa de cinema: cavalos brncos montados por índios começam a representação da saga dos povos do Prata. As dançarinas são lindíssimas, os belos portenhos com roupas deslumbrantes transitam pela casa compenetrados em seu trabalho. Os garçons de chapéu e avental comprido trazem o vinho da casa, água e refrigerantes. A voz do “cantante” Fernando Solera é privilegiada. Tudo é feito para encantar o turista. Hollywood está presente em alguns quadros do espetáculo: uma linda mulher com asas diáfanas desce do teto, pendurada em uma gangorra, lembrando a cena mais famosa de Moulin Rouge. A orquestra de bandonions, as gêmeas louras, os dançarinos habilidosos e toda a dramaticidade do tango fazem parte do show. Vimos fotos do astro maior da casa, Fernando Solera (ele é também o dono) com Hebe Camargo, Bill Clinton, Airton Sena, Pelé, Michael Shummaker, Liza Minelli, Bill Gates e tantos outros famosos. Recebemos uma taça de champanhe para um brinde e com a música "Dont cry for me Argentina" e todo elenco no palco, acontece o final do magnífico espetáculo. É mesmo de encher os olhos e a alma.
Pensamos em esticar até à Recoleta para uma “balada” (como dizem por lá), mas a exaustão nos venceu. Voltamos para o navio, onde o buffet da meia-noite nos levou a comer “horrores”: frutas, sanduíches, tortas, doces .... Quantas calorias, meu Deus!

25/03/04

Dia lindo, céu claro, sol forte! Após um café “dos deuses” descemos do navio e rumamos para a Calle Florida onde passamos o dia a ver vitrines, passeando entre barracas de flores e gente apressada, observando como são e como vivem os portenhos. Uma multidão anda pelos quarteirões fechados carregando sacolas e embrulhos. A Galeria Pacífico é um shopping que ocupa um quarteirão inteiro. Agasalhos, bolsas, perfumes, casacos de couro, moda refinada. Os preços de alguns artigos são bem vantajosos, outros nem tanto. Comprei suéteres e perfumes, um livro sobre pássaros da região e alguns mimos para mim... Eu mereço! Comemos umas empanadas divinas, acompanhada por um gigantesco capuccino numa cafeteria super charmosa, observadas de perto por um batalhão de portenhos com seus ternos bem cortados e perfumados excessivamente. Os homens são bonitos e sentem-se obrigados a olhar e gracejar para todas as mulheres, principalmente turistas, que cruzam seu caminho, independente da faixa etária. Chega a ser meio cômico.
Buenos Aires me surpreendeu. A cidade é linda, o povo alegre e hospitaleiro, a comida excelente... E o astral da cidade?

Com certeza voltarei em breve para ver tudo que ficou sem ser visto pelo pouco tempo que tivemos. Acredito que uma semana seja o tempo ideal para se conhecer e sentir essa bela cidade.

Hoje, lendo Jorge Luis Borges bateu uma saudade gostosa de Buenos Aires....

terça-feira, 13 de novembro de 2007

GALOPÉ - Aventuras e desventuras


" A alma mineira vive de saudades. tenho saudades das velhas cozinhas de Minas...."



A coisa começou de um jeito complicado. Um dos convidados, por uma privação de sentidos momentânea, esqueceu-se, (ou não se lembrou), de que cada um deveria levar cerveja para nossa reunião, o que nos levou a buscar o produto quente em um depósito de bebidas do bairro. Não sei porque, e acho que ninguém sabe, saímos em caravana para a casa do Paulo César e da Conceição. A perspectiva de degustar o famoso Galopé do Paulinho deixou todos excitados e “deu branco” na galera, pois os motoristas sabiam o caminho e mesmo assim a preocupação de todos era a de que chegássemos juntos e ninguém se perdesse. Na bela residência do casal, fomos recebidos com carinho e logo já estávamos no melhor lugar da casa, a cozinha. Panela grande sobre o fogão, violão encostado na parede à espera dos possíveis cantores e tocadores, cerveja gelada e o aroma fantástico de comidinha da roça emprestavam ao ambiente aquele aconchego necessário para algumas horas de puro prazer.E foi exatamente isto que aconteceu: adolescentes devidamente entrosados e a única criança naturalmente excluída, mulheres trocando confidências sobre homens, maridos e seres afins, Paulinho dando os últimos retoques na sua obra-prima fumegando sobre o fogão, cervejeiros com copos abastecidos e os primeiros acordes já alegrando a festa.De Lupicínio a Ari Barroso, de Pixinguinha a Cartola, de Paulinho da Viola a Chico Buarque, todos foram homenageados, cantados e decantados. Alguns cantores desafinados e que não participaram dos ensaios prévios, procuravam o compasso e o ritmo desesperadamente, mas entre mortos e feridos salvaram-se a alegria do encontro e a descoberta de novos e promissores talentos.Com petiscos primorosos, troca de receitinhas , um vinho bem gelado e o CD da Zizi Possi disputando espaço com os cantadores presentes, chegou-se finalmente a hora tão esperada. É verdade que dois convidados mais afoitos e no intuito de provar e aprovar o Galopé já tinham consumido uma boa quantidade do jantar. Felizmente, os donos da casa tinham preparado comida suficiente para um batalhão.A comida gostosa, temperada com carinho e competência, foi sendo lentamente consumida entre suspiros e elogios. Realmente foi um sucesso o Galopé do Paulinho.Temos de assinalar a demasiada preocupação da dona da casa com o serviço do jantar, uma vez que os garçons e o maître contratados, além de não terem comparecido, faltaram ao trabalho. Também os talheres apropriados para se comer o famoso prato não foram encontrados em BH e não foi possível importá-los da cidade natal da Sãozinha. Mas tudo bem... Lambendo-se os dedos e lambuzando-se, todos se deliciaram com o Galopé, que é a mistura inusitada de galo e pé de porco, temperados com esmero e cozido no ponto certo.Por causa de compromissos no domingo resolvemos partir e que aquela reunião teria continuidade no dia seguinte à beira da piscina na casa do Maurílio. Despedidas, agradecimentos, elogios, juras de amizade eterna e lá fomos nós rumo à saída da casa.- Meu Deus! Roubaram o carro do Nivaldo! Impossível! Como foi acontecer isto? Ladrão FDP. Que vamos fazer agora? Liga pro 190. Corre no Posto Policial. O Celso é amigo dos “home”, liga pra ele. Manobra o carro, Dão. Não chora, Soraya! Vão achar o carro. Que vamos fazer? Não tenho seguro. O carro não tem alarme. Que merda!Todos pareciam baratas tontas extremamente exaltadas (talvez por causa estado etílico de boa parte dos presentes).As providências rápidas e eficientes permitiram que em 15 minutos o carro fosse localizado e o Paulinho, num gesto de perfeito anfitrião foi, junto com o Nivaldo, dar uma voltinha de camburão, com policiais fardados e fortemente armados para resgatar o Uno de estimação da família.A Sãozinha deu uma bronca exemplar nos dois “vigilantes” da rua, mas ficando na dúvida se ambos os seguranças não estariam envolvidos no delito, uma vez que ela não contribui com a caixinha...Rezamos para que o Paulo César não fosse confundido com algum meliante, uma vez que, apesar do adiantado da hora (quase 2 horas da madrugada) e do vento frio, ele estava de chinelo, camiseta e bermuda, no mais puro estilo praia. Pedimos também aos céus que o Nivaldo pudesse trazer o carro sem que os policiais o submetessem ao teste do bafômetro nem exigissem dele o documento do carro, que tinha ficado na bolsa da Soraya.Não sei se pelo Galopé ou pelo fato ocorrido, a verdade é que esta noite ficará para sempre em nossa memória, apesar de ter acontecido em Abril de 1999.




Esse post vai para os amigos que, por esse ou aquele motivo, ficamos tanto tempo sem ver, o que não implica em esquecimento. Implica, sim, em SAUDADE...

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Palavras Novas


"No texto e no contexto, muitas vezes as palavras têm o significado que damos a elas."




Na idade média, os religiosos e nobres que habitavam a parte sul da região de Vovôva, viviam obcecados pela idéia de que um dia, talvez não muito distante, todos seriam destruídos por violentos pagungos que viriam do céu, como uma praga anunciada, decididos a acabar com tudo e com todos.


Não sabiam como evitar a catástrofe que se avizinhava. Consultaram a tenebrosa Colêta que , por sua vez, recorreu à poderosa Gogôga. Depois de se entregarem febrilmente aos seus antigos pergaminhos e às poções encantadas, nada descobriram. Não tinham o que sugerir aos donos das terras para barrar a destruição.


Macaias já voavam, lúgubres, sobre as cabeças, das pessoas esperando o banquete macabro. Homens e mulheres corriam contra o tempo. E era mesmo uma questão de tempo. Mais dia menos dia, tudo viraria pó. Não tinham mais esperança, não tinham mais alegria.


Eis que um dia, chega àquelas terras um passodinho, montado num cavalo branco. Era forte, tinha um olhar inteligente... Mais parecia um príncipe que um guerreiro.


Procurou imediatamente as autoridades locais e, acompanhado pelo fiel e gigantesco escudeiro da antiga etnia funfunka, propôs a solução para o problema que parecia insolúvel: Os pagungos seriam destruídos pelo fogo, tão logo chegassem à região.


E, assim, reuniram o povo na praça e construíram imensas tochas, usando velhos trapos e todo o azeite que puderam reunir, como combustível. Logo que os pagungos se aproximam, as tochas são acesas e tem início a terrível batalha.


O cheiro de carne queimada e a fumaça das tochas ainda são visíveis , mas todos os invasores são destruídos. Algumas pessoas morreram, muitas estão feridos, mas agora, o medo e o desespero já não fazem mais morada naquelas terras. O passodinho e seu escudeiro são aclamados pelas ruas pela bravura com que enfrentaram a ameaça com a idéia do fogo. Tão simples e tão eficaz.




Todas as palavras em vermelho só existem na linguagem que, pouco a pouco, a Isabela de 3 anos (e que já domina o português) vem construindo. Ela sempre diz essas aqui escritas e outras que não me lembro.. CRIAR UMA LÍNGUA NÃO É TAREFA FÁCIL ... Mas ela ainda chega lá.


quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Dia das Bruxas

" A mediocridade não reconhece nada melhor do que ela mesma." Sir Arthur Conan Doyle


Estou me lembrando que há uns três anos, desenvolvi um Projeto com meus alunos da periferia sobre o "Dia das Bruxas". Contamos todas as fantásticas histórias onde as bruxas aparecem encantando princesas, transformando príncipes em sapos ou feras, fiscalizando dedinhos para ver se o menininho havia engordado, adormecendo donzelas, aprisionando mocinhas nas altas torres de castelos assombrados.
Assistimos filmes divertidos, falamos do Harry Potter (ainda no segundo volume), rimos com as trapalhadas da Madame Min e o Mago Merlin...
Escrevemos histórias, desenhamos, demos asas à imaginação... No Dia das Bruxas, sentados no pátio, à sombra de uma árvore ainda com as flores da primavera, escavamos uma enorme abóbora e fizemos a famosa lanterna do Halloween. Aprendemos sobre a origem da comemoração, ficamos sabendo de outras culturas, outros povos, outras terras. A abóbora foi levada de sala em sala e todas as crianças da escola puderam aprender um pouco sobre essa festa divertida. Cantamos algumas musiquinhas das histórias contadas, montamos um painel, pintamos bruxas feiosa, de chapéu ponteagudo, caldeirão, morcegos e lagartixas.
No dia seguinte, fiz um doce gostoso, temperado com cravo e canela e as crianças se fartaram com o sabor e a cor alaranjada da ex lanterna esculpida no dia anterior...Também, no dia seguinte, ouvi comentários sobre a festa do Mal, da heresia de se convocar espíritos baixos, de não valorizar o que é nosso.
De agora em diante o melhor é fazer festa pra Saci Pererê e jabuticaba, que são as únicas coisas totalmente brasileiras. Pensando bem, Saci tem uma conotação demoníaca e incomoda os fanáticos de plantão. O melhor é só ensinar sobre a jabuticaba.
Ontem fiz uma lanterna de abóbora para a minha neta, que ainda não fez três anos. Quero que ela entenda o mundo de uma forma mais divertida, mais leve... Sem censura religiosa, sem ideologia barata, sem patrulhamento nacionalista. Alegria e bom humor não têm pátria nem crença. São de todo o MUNDO.
Esse post vai para todas as bruxas que conheço, inclusive uma que mora na Tijuca e detem os poderes da sedução.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Recordar é Viver

" Amigos podem, com sua palavra e companhia, despertar ilusões e desejos de conhecer toda a magia do mundo."

Eles já vinham nos convidando, há tempos, para uma ida a São Roque e, no último encontro ficamos combinados que, no Carnaval, iríamos para o sítio que eles possuem próximo à São Paulo.

Já que convidaram, lá vamos nós... E vamos “de galera”. Uns vão de carro e, nós , de ônibus. Com direito à baldeação em Sorocaba. A rodoviária de BH estava simplesmente intolerável. Milhares de pobres brasileiros à beira de um ataque de nervos, indóceis, a espera dos ônibus que, definitivamente, não conseguiam vencer os engarrafamentos, já que todos queriam viajar ao mesmo tempo para aproveitar o feriadão de Carnaval. As plataformas de embarque apinhadas de gente. Sentados nas bagagens, homens (será?) se massageando sensualmente, mulheres gordas querendo matar os fiscais e embarcando na “marra”, pessoas estacionando enormes malas sobre os nossos pés, sem contar os inúmeros carnavalescos completamente alcoolizados que infernizavam a vida de todo mundo. O stress tomou conta de passageiros, fiscais e motoristas diante do caos instalado. Os ônibus saindo com duas, três horas de atraso. Terminada a maratona da rodoviária, a viagem seguiu normalmente, apesar da estrada bastante movimentada.

Próximo ao Anhembi o trânsito “engessou” de vez. Para nossa alegria e regozijo de alguns passageiros, as Escolas de Samba do Primeiro Grupo estavam acabando de desfilar e centenas de integrantes da Nenê de Vila Matilde se acotovelavam nos ônibus para voltar à periferia. Baianas, piratas, descobridores, príncipes e navegantes, índios, fantasmas e passistas seminuas davam o ar da graça, apesar de visivelmente cansados. O sol forte e o trânsito lento foram minando a nossa paciência, que nessas alturas já era escassa. Mais à frente, centenas de carros desciam para o litoral entupindo a estrada e aumentando a morosidade da viagem. Só por volta das nove horas chegamos a Sorocaba, onde embarcamos para São Roque.

O dono da casa foi nos buscar e logo, logo chegamos ao paraíso. A casa é ampla é decorada com o bom gosto característico da nossa anfitriã. Plantada entre extensos gramados, bem cuidados jardins e um pequeno bosque. A velha e florida quaresmeira se enfeitou de rosa para brindar a nossa chegada. Lá embaixo o azul da piscina em meio ao verde das plantas convidava para um mergulho. A área da churrasqueira, sauna e banheiros é localizada em um grande espaço com piso de ardósia. Mesinhas, cadeiras e simpáticos banquinhos forrados de couro convidam ao relax. Um balcão sugere a cerveja bem gelada, servida quase que imediatamente proprietário do paraiso. E é nesse espaço que anfitriões e convidados exercitam seu esporte favorito e a grande pedida da temporada é jogar conversa fora. O caseiro, antigo bar-man, nos preparou coquetéis de vinho tinto e champagne, eu fiz um macarrão seguindo uma receita da Beá, mas o carro-chefe do almoço foi mesmo o churrasco, feito com pompa e circunstância pelo chef . Desnecessário dizer que tudo isso foi acompanhado de cervejas, cervejas e mais cervejas super geladas.

Quase ao anoitecer a chuva começou a cair de mansinho. Mais tarde continuamos a conversa sentindo o aroma do orégano e queijo vindo das pizzas que assavam lentamente.

Lá pelas cinco e meia da manhã acordei e fiquei na varanda, estirada na rede curtindo o belo jardim, vendo um pica-pau, no alto de uma árvore batucando com o bico tronco endurecido.
Saímos logo após o café para o sítio de outros amigos. Uma luxuosa casa em fase final de construção numa área cercada de pinus e araucárias. Chope direto de uma chopeira dourada fez a alegria dos rapazes. O churrasqueiro contratado, especialista em carnes, nos deixou encantados com a habilidade no trato com as picanhas, lingüiças, costelas e lombos. O vinho italiano, geladíssimo, as uvas e ameixas frescas, salada verde de verdurinhas colhidas no dia nos seguraram à mesa por várias horas. Jogamos sinuca, conhecemos a criação de cabras e a cultura hidropônica, que é o chamego do dono que, aposentado, pode curtir esses raros prazeres. Só após outra rodada de pôquer, mais chope, charutos, golinhos de grappa, licores fantásticos, café expresso acompanhado da enorme simpatia dos nossos novos amigos, é que conseguimos, finalmente, tomar o rumo da Rodovia Raposo Tavares. Após nos perdermos e nos acharmos, chegamos ao sítio. Entre bêbados e perdidos acabamos encontrando o caminho ...

Logo na chegada uma das “meninas” protagonizou uma cena de “aracnofobia” e eu demonstrei extrema coragem ao exterminar com inseticida uma monstruosa aranha que invadira os aposentos da ex donzela recém casada. Na verdade o terror só não foi maior que o pânico demonstrado pelas crianças com a aparição de um demônio vermelho soltando fogo pelas ventas. Só se acalmaram ao descobrirem que o tal capeta não era senão o dono da casa com uma máscara de látex, comemorando o carnaval e recordando bons momentos da infância.

Todos querem aproveitar as últimas horas e não se cansam de recordar os fatos do passados, a infância difícil, a escola, a convivência com os primos, os casos engraçados, a avó – pessoa que marcou a vida de todos - os namoros de antigamente...

Nosso anfitrião, para ter realmente a certeza que iríamos embora, nos levou até Sorocaba onde embarcaríamos rumo a BH.

O carnaval de 2000 foi marcado pelo carinho com que fomos recebidos, as conversas ao pé da lareira, os banhos de piscinas, o churrasco, as boas risadas e os inesquecíveis momentos que passamos junto àqueles que queremos tão bem.

Esse post vai para o Kiko, agora em terras africanas e para a Beá que está em Sampa - amigos de fé. E para a Zélia, onde quer que ela esteja.