domingo, 1 de setembro de 2013


BATIZADO DO JOÃO

Semana passada meu neto João foi batizado, e foi aqui em casa. Não foi um batizado convencional. Seus pais, Renata e Leo, também não são nada convencionais.

Não quiseram batizá-lo na Igreja, pois não são católicos e não professam nenhuma outra religião. Na verdade, acho que professam tudo que há de melhor em cada uma das religiões conhecidas.


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Arrumaram a mesa como se fosse mesmo um altar, forrada com uma toalha branca, com frutas, água, uma caixa enfeitada pelos padrinhos - os tios Marcelo e Maíta - e um pequeno saquinho de tecido branco feito pela vovó Juju, amarrado com uma fita azul.

As cadeiras e bancos já estavam dispostos frente à mesa e os avós, um casal de amigos, quatro priminhos e os tios se posicionaram para o Batizado do João.

O Papai Leo, já emocionado e com lágrimas nos olhos, começou a conversar com as pessoas ali presentes, o João no colo da Mamãe Rê, observando tudo e todos. A emoção estava presente em cada rosto, em cada olhar... Com dificuldade e com a voz embargada, o Leo explicou que gostaria que cada um, com sua fé e sua crença, acompanhassem a leitura do texto que ele e a Mamãe Renata haviam escrito:


 BATIZANDO JOÃO

Vai João, ser FELIZ na vida.

O batismo é um rito de iniciação, feito normalmente com água sobre o iniciado, e está presente em vários grupos sociais, religiosos ou não. A palavra “batismo” tem origem no grego e significa “imergir em água”. Para a Igreja Católica, o batismo tem a finalidade de limpar a mancha do pecado original, cuja origem está na desobediência de Adão e Eva a Deus, garantindo ao batizado a salvação eterna.

João é um bebezinho e, para nós, personifica a pureza. Portanto, acreditamos que dentro da lógica descrita acima, nós adultos é que deveríamos, por ele, ser batizados.

Se pudéssemos ser batizados por João (recorre-me agora que Jesus Cristo foi batizado por um João), seríamos purificados e salvos das manchas resultantes de nossas inconsistências e incoerências em relação à Mãe de todas as mães: a Natureza, ou Pachamama, reverenciada pelos povos antigos, da qual tudo e todos fazemos parte.

Foi nessa hora que olhei para o rosto das pessoas e vi a emoção que tomou conta de todos:

Que, ao olhar para os olhinhos do João, de onde emanam ensinamentos singelos ignorados por nós cotidianamente, façamos deste rito de iniciação um movimento inverso: que João nos dê de presente uma passagem de volta aos nossos próprios inícios - ao tempo em que fomos mais livres, mais autênticos, mais puros, mais verdadeiros.

Ao João, gostaríamos de deixar não ensinamentos, e sim, desejos, simbolizados por oito elementos. Os padrinhos de João, tio Marcelo e tia Maíta, escolhidos carinhosamente por nós, seus pais, guardarão os oito símbolos nesta pequena caixa decorada por eles, especialmente para a ocasião. Ao final desta celebração, seus padrinhos irão presentear seu afilhado com a caixa recheada de desejos.

A missão dos padrinhos de João será, junto aos seus pais, ajudá-lo a compreender, ao longo de sua vida, nos momentos que saberão eles serem oportunos, a essência de cada desejo aqui representado.
  
Todos em silêncio. Pensando e refletindo nas palavras proferidas pelo Pai do João. Palavras que brotaram do mais profundo desejo de ver o filho querido e desejado ser uma pessoa íntegra, feliz e que respeite a natureza, os pais, seus semelhantes, e sobretudo, a VIDA.


Os padrinhos, Maíta e Marcelo, desfizeram o laço de fita azul do saquinho que continha os símbolos DOS OITO DESEJOS. E foram pedindo aos avós, aos tios, aos amigos, que retirassem um objeto. À medida que os objetos iam sendo retirados, os padrinhos mostravam-nos aos demais e liam em voz alta o seu significado.

Um vidrinho transparente , tirado pelo tio Guiljerme. continha o primeiro símbolo dos oito desejos. E foi colocado com carinho, pelos padrinhos, na caixa decorada por eles:

A Água – esta água simboliza a Saúde. Que João respeite sua própria natureza e preserve a saúde de seu corpo e sua mente em tudo o que se propuser a fazer.

Depois uma pedrinha, trazida de uma praia do Oceano Pacífico, no Peru, também foi guardada:

A Pedra – esta pedra simboliza o Aprendizado. Que João tenha suas qualidades aperfeiçoadas pelas dificuldades naturais da vida, assim como este seixo peruano teve sua beleza revelada pelos atritos em seu caminho.

Agora uma concha, vinda do fundo do mar de Guarapari, que encostada ao ouvido nos faz ouvir o barulho do mar:

A Concha – esta concha simboliza a Comunicação. Que João saiba ouvir a voz mais importante de todas: a sua própria, a intuitiva, a que vem de dentro de si.




E uma  vela foi acesa pelo Vovô Danilo. O priminho Pedro foi quem apagou a chama. Também ela foi guardada:

A Vela – esta chama simboliza o Encantamento. Que João jamais perca sua capacidade natural de admirar a beleza sutil que permeia o Cosmos.

Um pequeno e verde pedaço de bambu surgiu do interior do saquinho branco:

O Bambu – esta haste de bambu simboliza a Flexibilidade. Que João saiba ser firme, porém flexível, mantendo seus pés no chão, e sua curiosidade inata nas nuvens.

Um coquinho macaúba, vindo lá do Norte de Minas, foi o fruto escolhido, e também simboliza um dos desejos ao nosso pequeno João. Esse coquinho  estava na cesta de frutas da casa do João desde que seus pais se casaram:

O Fruto – este fruto simboliza a Vida. Que João possa plantar muitas sementes, no seu quintal e no coração das pessoas, e colher muitos frutos frescos e alegrias ímpares.


Agora uma das primeiras fotos dos pais do João, ainda adolescentes, sentados em um jardim florido:

A Fotografia – esta fotografia representa o Amor. Que João possa experimentar a plenitude do Amor ao construir sua família, assim como seus pais o tem experimentado desde que ele nasceu.

O último símbolo foi uma pena de um gavião Casaca-de-Couro, lá das bandas do Rio Pandeiros, em Januária. A pena foi colocada na caixinha pelos pais do João:

A Pena – esta pena simboliza a Liberdade. Que este rito de iniciação celebrado por nós aqui presentes, liberte João para voar em busca de seus próprios caminhos espirituais.

Nessa hora, ouviam-se indisfarçáveis soluços emocionados. O pai se desmanchou em lágrimas várias vezes. Poucas vezes vi tanta emoção em um grupo como nessa cerimônia simples e cheia de simbolismos de Amor e Respeito. Depois de respirar fundo, o Papai Leo retomou a palavra:

Para finalizar esta celebração, gostaríamos de convidar a vovó Marlene para conduzir o batismo do João. Este rito de iniciação comunica ao João que seus pais, apesar de não católicos, compartilham dos valores cristãos, por entenderem que nada mais são do que valores compartilhados por toda a humanidade.

No momento do Batismo, gostaríamos de pedir aos presentes que façam uma oração silenciosa para João, dentro de suas próprias crenças. Pois aqui as intenções amorosas são mais importantes do que as crenças individuais.





A vovó Marlene disse belas palavras e procedeu ao batismo do neto. A água estava numa jarra que pertenceu à bisavó Lourdes, e a “bacia” de vidro, à trisavó Maria. Mais simbolismo impossível. Só o bebê João não chorou quando a água foi derramada sobre sua cabecinha. E O Papai lembrou que o primeiro batizado realizado por Jesus, foi também de   um João.


O Pai Nosso e a Ave Maria foram rezados com fé e convicção, todos pedindo a Deus que abençoasse e amparasse o pequeno João por toda a sua vida. Tia Ruth pediu a palavra e, evangélica, disse nunca ter assistido uma cerimônia tão bonita. Lembrou então uma passagem bíblica, quando Jesus diz que “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei aí, no meio deles”.











Terminada a cerimônia, muitos abraços e aplausos - o João adorou a parte dos aplausos - e depois de fotos e mais fotos para lembrar esse dia tão especial, começou-se a comemoração do Batizado do João.










O João é uma criança que antes de sua concepção já era amado por seus pais de uma forma absoluta. Seu nascimento também foi especial, numa banheira, ajudado pelo pai e pela coragem da mãe. A cerimônia do Batismo foi uma declaração explícita desse Amor incondicional do Leo e da Renata a esse filho que, com certeza, será um ser especial, feliz e muito bem resolvido perante a Vida e o mundo que o cerca.







A feijoada ficou por conta da vovó Marlene e a os tira-gostos foram feitos pela vovó Juju. As deliciosas sobremesas bem mineiras foram trazidas de Paracatu pela tia Ruth e tio Flô.





Um comentário:

joao de Deus disse...

Muito interessante esse batizado, família fazendo história de um batizado leve, com os pensamentos voltado para o joão no desejo que ele cresça saudável de corpo e de alma.
Parabéns João e toda sua família.